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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ESTRESSE EM CRIANÇAS



Diante de um perigo ou situação crítica, o ser humano tem uma reação  que chama de fuga ou luta. Esta reação ocorre quando, por algum estímulo, o organismo produz uma descarga de adrenalina. A partir desta descarga algumas reações acontecem. As pupilas se dilatam, há uma redução da circulação periférica, a frequência cardíaca aumenta. Tudo isto para nos deixar em uma situação onde ou vamos fugir (correr) ou vamos lutar. Passado o perigo ou situação crítica, o corpo volta à normalidade e, não raro, ocorre uma sonolência cuja finalidade é o repouso regenerador. Este é um resumo ultra simplificado de uma reação normal e necessária que temos. Quando a situação crítica ou sensação de perigo não cessa, a produção de adrenalina é constante e não há momento de sono reparador. Essa situação de estado contínuo de descarga de adrenalina é conhecido como estresse e tem consequências muito sérias para a saúde do ser humano. Habitualmente, quando falamos em estresse, pensamos em um adulto, sobrecarregado com trabalho, ansioso e angustiado. Dificilmente associamos a palavra estresse às crianças.
No entanto, por inúmeras razões que vão desde a deprivação emocional, abandono, carências básicas como alimentação e manutenção da temperatura corporal, até um ambiente familiar violento, incluindo maus tratos, a criança pode estar ou ficar estressada. Certamente os exemplos que dei, extremos, devem fazer com que imaginem que, nestas circunstâncias, faz todo sentido uma criança ficar estressada. Mas, quero chamar a atenção para um produtor de estresse infantil, muito mais sutil, porém não menos perigoso. Falo do tempo, ou melhor, da falta de tempo.
Apesar da natureza nos dar lições diárias sobre o tempo adequado, através das estações do ano, ou mesmo da duração de uma gravidez, insistimos com a ideia de que há sempre um “tempo para ser ganho”. Isto é verdade em todas as atividades onde a tecnologia pode nos ajudar, como nas viagens de avião, na transmissão de dados por computadores, nos cartões de crédito ou débito. O perigo é acharmos que o tempo pode ser ganho em todas as atividades humanas. Ou, que precisa ser ganho em todas as atividades humanas. Curiosamente, na época em conseguimos “ganhar mais tempo”, também é quando mais nos queixamos de falta da tempo. Algo parece muito errado nessa equação – quanto mais tempo eu ganho, menos tempo eu tenho. Chegamos ao extremo de declararmos que não temos tempo para nada!  Esse quadro, por si só, seria dramatico. Para piorar, na nossa cultura vigente, não ter tempo para nada é sinônimo de status. Quem tem tempo para algo, geralmente para si, seu lazer e prazer, para os relacionamentos com a família e amigos, ou é um sortudo que ganhou na mega sena ou um preguiçoso irresponsável. Vejam aqui, uma nova contradição. Enchemos o peito para dizermos que não temos tempo para nada, buscando a admiração e reconhecimento de quem nos ouve, mas, se ganhássemos na mega sena, muito provavelmente não usaríamos nosso tempo da mesma forma como usamos hoje.
A questão é que passamos a educar nossos filhos da mesma forma com que vivemos: sem tempo para nada.  Uma criança tem necessidade, para seu pleno desenvolvimento físico e mental, de brincar. Brincar, não necessariamente com brinquedos sofisticados, eletrônicos. Brincar como uma ato de criatividade, onde uma caixa se transforma em casa e uma tampa de garrafa em um animal que está sendo perseguido por uma lata que, na verdade é um leão. Esse brincar só tem uma necessidade: tempo. Tempo para nada, só para brincar. Não é um tempo cuja produtividade vá ser medida no momento da brincadeira, mas, cujo reflexo se pereceberá na vida adulta. Uma criança que tem tempo para brincar, sem que seja na aula disso ou no curso daquilo, desenvolve capacidades fundamentais para uma vida adulta saudável. A criança que cria brincando, se torna mais tolerante com a frustração. Aprende a criar alternativas, com o pouco material que tem. A criança que cria brincando, se torna mais analítica, conseguindo avaliar as variáveis que tem em mãos e gerar soluções (criativas). A criança que tem tempo para brincar, não está submetida a uma agenda rígida, com compromissos e exigências que geram uma descarga contínua de adrenalina (estresse). O brincar com tempo, sem exigências de performance ou metas, em um ambiente acolhedor e carinhoso, é a melhor prevenção para o estresse infantil.
Para os pais, selecionei um trecho do clássico Winnie the Pooh:edward bear
Aqui vem Eduardo Urso descendo as escadas –  bong, bong,bong, batendo a cabeça nos degraus, logo atrás de Cristopher Robin. É, até onde sabe, a única maneira de se descer escadas. Mas, às vezes, ele suspeita que possa haver uma outra maneira de descer. Se ele pudesse ao menos parar de bater a cabeça por um instante e pensar em uma alternativa…
Certamente está na hora de pararmos um pouco para pensarmos em alternativas para o uso do nosso tempo e do tempo de nossos filhos. Não é razoável sentirmos orgulho de não termos tempo. Não é aceitável impormos um estresse desnecessário para nossos filhos.


Texto: Dr Roberto Cooper: https://robertocooper.com/

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