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domingo, 27 de dezembro de 2015

Zika - Quando o desafio é sermos racionais!


O assunto do momento é o Zika vírus porque estamos vivendo uma situação de aumento do número de casos e a revelação, diária, de novos aspectos relacionados à esta infecção. Mas, a dura realidade é que ainda sabemos muito pouco a respeito deste vírus e do seu comportamento em seres humanos. Hesitei em escrever este blog exatamente porque não sabemos muito. O que eu teria a contribuir? O que eu poderia dizer que ainda não foi dito e repetido pela imprensa e artigos científicos? Portanto, se você, meu leitor, veio até esta página em busca de novidades ou “revelações” a respeito de formas de evitarmos ou tratarmos esta doença, poupo seu tempo, dizendo que não tenho nada de novo a dizer, sobre esses aspectos da doença. Mas, pensei em falar sobre o que podemos fazer, diante de uma situação de desconhecimento e ameaça. Minha proposta é que, nesse cenário, o desafio é utilizarmos algo que é exclusivo da nossa espécie: a racionalidade. A racionalidade não será capaz de eliminar o medo que sentimos. Sentir medo é bom porque nos mantém alertas e cuidadosos. 
O que a racionalidade pode evitar é o pânico. O pânico nos leva a comportamentos irracionais, não justificados, muitas vezes mais perigosos do que o perigo que estamos enfrentando. Diante de uma situação ainda não clara e definida, sejamos racionais, fazendo jus ao nome da nossa espécie- Homo sapiens. 
A seguir, algumas sugestões do que podemos fazer, racionalmente:
1- diante de um cenário de pouca ou nenhuma informação científica confirmada, sejamos ainda mais rigorosos com as fontes que vamos consultar. Isto é, só devemos ler a respeito de Zika em sites oficiais do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde, Secretarias de Saúde, Sociedades Médicas, nacionais ou internacionais. Não devemos consultar aleatoriamente sites ou blogs sem que tenhamos referências sólidas destes. Fóruns de debate, grupos de pacientes, testemunhos e relatos de casos, não são boas fontes de consulta, numa situação como esta. É preciso limitarmos nossas fontes às que são realmente confiáveis.
2- definir o que já se sabe e, a partir deste conhecimento, traçar um plano de conduta individual e para a família. E o que sabemos?
Sabemos que 80% dos casos são ou assintomáticos (a pessoa nem sabe que foi infectada), ou a manifestação clínica não tem gravidade. Alguns casos podem apresentar uma síndrome neurológica chamada Guillain- Barré, com paralisia muscular que, geralmente, é transitória e reversível. Estes casos não são a regra da infecção pelo Zika, mas, um número muito pequeno. Acabam sendo conhecidos e se tornam motivo de pânico (irracional). No caso das gestantes, há o risco da microcefalia, motivo real de apreensão, considerando que ainda não sabemos muito a respeito. Circula, pela internet um áudio que fala dos riscos para crianças até 7 anos. Este áudio não tem fundamento e é um bom exemplo de fonte não confiável que se torna viral (sem trocadilho), disseminando desinformação e insegurança. 
Também sabemos que o Zika vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. Essa informação é fundamental porque, se não formos picados pelo inseto, bye bye Zika. Como não ser picado pelo inseto? 
No âmbito comunitário, cuidando para que não haja nenhum local na casa, prédio, condomínio, onde água limpa possa ficar parada. É nessa água limpa que o Aedes vai colocar seus ovos e reproduzir. Claro que o Estado tem suas obrigações com relação à erradicação do mosquito, mas, cada um de nós também pode e deve evitar que novos mosquitos surjam. Jogar lixo no chão (onde a água de chuva poderá se acumular), deixar plantas com água dentro de casa ou no jardim, cultivar plantas em cujas folhas se acumule água limpa (bromélias), são alguns exemplos de ações que nem sempre pensamos que possam estar associadas à eliminação do Zika. Ficamos focados em vacinas e remédios e esquecemos da prevenção ambiental!
No âmbito individual, evitarmos as picadas, utilizando proteção mecânica: roupas, mosquiteiros, telas, e química- repelentes e inseticidas. 
Com relação aos repelentes, existem 3 princípios ativos que são aprovados para uso humano:
IR3535: o uso tópico de repelentes a base de Ethyl butylacetylaminopropionate (EBAAP) é tido como seguro para gestantes, sendo indicado, inclusive, para crianças de seis meses a dois anos, mediante orientação de um pediatra. A duração da ação dos repelentes que usam esse princípio ativo, como a loção antimosquito Johnson’s, entretanto, é curta e precisa ser reaplicado a cada duas horas.
DEET: apesar do uso tópico de repelentes a base de dietiltoluamida ser considerado seguro em gestantes, o produto, segundo a recomendação da ANVISA, não deve ser utilizado em crianças menores de 2 anos. Já o EPA e a Academia Americana de Pediatria consideram o seu uso (em concentrações até 30%), seguro para crianças a partir de 2 meses.  O tempo de ação dos repelentes a base de DEET recomendado para adultos, como os produtos OFF, Autan, Repelex, é de cerca de 6h. 
Icaridin: por oferecer o período de ação mais prolongado, os repelentes a base de Icaridin, como o produto Exposis, estão sendo os mais procurados por adultos e gestantes. Com duração de proteção de até 10 horas e, potencialmente, menos irritante para a pele, segundo a ANVISA também pode ser usado por crianças a partir de 2 anos, mas as autoridades americanas e a Academia Americana de Pediatria consideram o seu uso seguro, a partir de 2 meses.

Algumas dicas para o uso de repelentes:
– Sempre leia o rótulo e instruções de uso do produto;
– Nunca deixe que crianças pequenas apliquem o produto sozinhas;
–  Se o produto é apresentado em aerossol ou spray, aplique um pouco na sua mão e passe na criança. Não faça um jato direto sobre a criança;
– Não use repelente em área do corpo coberta por roupa;
– Aplique o repelente nas áreas descobertas: braços, pernas, atrás das orelhas e no pescoço. Reaplique até 3 vezes no dia;
– Use uma quantidade suficiente para cobrir a pele. Colocar mais repelente não aumenta sua potência ou tempo de ação:
– Não use repelente em área onde a pele esteja irritada, com algum ferimento ou corte;
– Não passe o repelente nas mãos das crianças menores para evitar que esfreguem repelente nos olhos ou coloquem na boca;
Além dos princípios ativos, temos as medidas citadas de proteção mecânica:
– Uso de redes ou mosquiteiros nos berços e carrinhos;
– Uso de roupas que cubram mais o corpo da criança (mangas e calças compridas). O problema é o calor que, na maioria das vezes, impede o uso destas roupas. Mas, dentro do possível, quanto mais coberto ficar o corpo, menos área de exposição, menos chance de ser picado;
– Evitar roupas com cores vivas ou padrões florais. Alguns estudos mostram uma maior atração dos mosquitos por cores vivas e padrões florais;
– Evitar perfumes, colônias, sabonetes e xampus muito cheirosos ou que deixem seu perfume por longo tempo. Aparentemente, o odor de perfumes, colônias, sabonetes e xampus podem atrair os mosquitos.
Sabemos que o complexo B não funciona para afastar mosquitos. Sabemos que os produtos “naturais” não aprovados pela ANVISA, não funcionam para afastar mosquitos. 
Não quero, com este post, minimizar a gravidade da situação. Quero sugerir que a racionalidade humana pode ser uma aliada que nos permita tomar medidas e estabelecer comportamentos (coletivos e individuais) que estejam alinhados com o melhor conhecimento disponível hoje. Embarcar em soluções “mágicas” seria abrir mão do que nos fez enfrentar várias situações desconhecidas (a última mais famosa foi a AIDS) de forma estruturada, organizada e com sucesso.  Nosso desafio, neste momento, é sermos racionais ou vivermos no pânico irracional. 

Texto: Dr Roberto Cooper: http://robertocooper.com/


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